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26 de junho de 2026

Febre na infância: o que fazer (e o que não fazer)

A febre assusta, mas não é uma doença — é um sinal de que o corpo está se defendendo. Entenda quando tratar, como usar os antitérmicos com segurança e quando a febre pede atenção redobrada, incluindo o alerta sobre dengue e outras arboviroses.

Febre na infância: o que fazer (e o que não fazer)

Poucos sintomas geram tanta ansiedade nos pais quanto a febre. É comum a família correr para medir a temperatura a cada hora, ou achar que um número mais alto no termômetro significa uma doença mais grave. Vale a pena desfazer esse mito desde já: febre não é doença, é sinal. Ela é a expressão de que o sistema de defesa da criança está reagindo a algo — na grande maioria das vezes, uma infecção viral simples e autolimitada.

O que é febre, de fato

Quando o corpo entra em contato com vírus, bactérias ou outros estímulos, substâncias chamadas pirógenos fazem o "termostato" do cérebro, localizado no hipotálamo, elevar o ponto de regulação da temperatura. O resultado é a febre: uma resposta de defesa, não um descontrole do organismo.

Considera-se febre, segundo a referência adotada pela Sociedade Brasileira de Pediatria, uma temperatura axilar igual ou superior a 37,5°C. É normal a temperatura variar ao longo do dia — mais baixa de madrugada, mais alta no fim da tarde — e essa variação é ainda maior em bebês. Por isso, uma temperatura levemente elevada no fim do dia, sozinha, nem sempre significa febre.

A intensidade da febre não indica gravidade

Um dos pontos mais importantes para os pais entenderem: não existe relação comprovada entre o quanto a febre sobe e a gravidade da doença. Uma criança com 38,5°C brincando e se alimentando bem está, em geral, em situação bem diferente de uma criança com 38°C sonolenta, irritada ou recusando líquidos. É o estado geral da criança que deve guiar a preocupação dos pais — não o número no termômetro.

Quando dar o antitérmico

Não existe um valor mágico de temperatura a partir do qual o remédio deve ser dado. A recomendação é usar o antitérmico quando a febre vier acompanhada de desconforto evidente: choro intenso, irritabilidade, queda de apetite, dificuldade para dormir ou queda na disposição da criança. Se ela está com febre, mas brincando tranquilamente, o remédio pode até esperar.

No Brasil, os antitérmicos disponíveis são paracetamol, dipirona e ibuprofeno — todos eficazes e seguros quando usados na dose certa, sempre seguindo a orientação do pediatra e a bula do produto. Vale destacar três cuidados importantes:

  • Não alterne dois antitérmicos diferentes "para garantir". Apesar de ser uma prática comum, não há evidência de que alternar melhore o controle da febre, e o risco de erro de dose aumenta — esse é, de longe, o erro mais frequente cometido por cuidadores.
  • Não use ácido acetilsalicílico (AAS/aspirina) em crianças com febre, pelo risco da síndrome de Reye, uma complicação rara, mas grave.
  • Atenção ao gotejador. Frascos diferentes de um mesmo remédio podem ter gotejadores que liberam volumes distintos por gota. Sempre confira a bula da apresentação que você tem em casa, e não confie de cabeça em "uma gota por quilo".

Antitérmico não previne convulsão febril

Muitos pais dão remédio preventivamente com medo da convulsão febril. Os estudos mais robustos mostram que o uso de antitérmico não reduz o risco de convulsão febril em crianças predispostas. Isso não significa que a convulsão febril seja motivo de pânico — na maioria dos casos, é benigna — mas reforça que o antitérmico deve ser usado para o conforto da criança, não como prevenção.

Métodos físicos (banho frio, compressas)

Banhos frios, compressas ou desagasalhar excessivamente a criança não são recomendados como tratamento de rotina da febre. Eles têm efeito rápido, porém de curtíssima duração, e costumam causar desconforto, calafrios e irritabilidade — sem trazer benefício real.

Sinais que pedem atenção médica

Procure o pediatra (ou um serviço de emergência, conforme a urgência) quando a febre vier acompanhada de:

  • bebê com menos de 3 meses com febre, mesmo que pareça "bem";
  • sonolência excessiva, dificuldade para despertar ou irritabilidade que não melhora;
  • dificuldade para respirar, gemência ou lábios arroxeados;
  • manchas roxas na pele, sangramentos ou rigidez de nuca;
  • recusa importante de líquidos, com sinais de desidratação (boca seca, choro sem lágrimas, poucas fraldas molhadas);
  • febre que persiste por mais de 3 a 5 dias sem melhora.

Um alerta especial: febre e dengue

No Brasil, é fundamental lembrar que dengue, chikungunya, zika e outras arboviroses costumam começar com febre alta e súbita. Na dengue, em particular, existe um ponto que merece atenção redobrada dos pais: a queda da febre, entre o 3º e o 7º dia de doença, não é necessariamente um sinal de melhora. É justamente nesse momento que pode começar a chamada fase crítica, quando o risco de complicações é maior.

Por isso, em regiões com transmissão de dengue, fique atento a sinais de alarme mesmo depois que a febre passar: dor abdominal intensa, vômitos repetidos, sangramento de gengiva ou nariz, sonolência ou agitação incomum, e mãos e pés frios. Nesses casos, procure atendimento médico imediatamente.

Um ponto que não pode passar em branco: sempre que houver suspeita de dengue, evite o ibuprofeno e qualquer outro anti-inflamatório, assim como o AAS. Esses medicamentos aumentam o risco de sangramento justamente no momento em que a doença já predispõe a isso. Diante de febre alta em área com transmissão de dengue, a opção seguramente segura — até a confirmação ou exclusão do diagnóstico — é o paracetamol ou a dipirona.

Mensagem para os pais

A febre, isoladamente, raramente é motivo de pânico. O papel dos pais é observar a criança como um todo — disposição, apetite, respiração, hidratação — e não fixar a atenção apenas no número do termômetro. Na dúvida, o pediatra é sempre o melhor caminho para tranquilizar a família ou identificar precocemente um sinal que realmente precise de atenção.


Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um médico. Cada criança deve ser avaliada individualmente por um profissional de saúde.

Dr. Lucas Naufel — CRM-SP 176.437 | RQE 85.131

Fontes: Sociedade Brasileira de Pediatria — Abordagem da Febre Aguda em Pediatria e Reflexões sobre a febre nas arboviroses (Documento Científico nº 206, maio de 2025).

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